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As escolhas de... Cucha Carvalheiro

É atriz, encenadora, argumentista, voz de filmes e desenhos animados, chegou a ser professora, escreveu livros escolares e uma obra infantil. A multifacetada Olinda Maria Carvalheiro da Fonseca e Costa, mais conhecida por Cucha Carvalheiro, nasceu a 4 de junho de 1948, em Lisboa.


Ao longo de quatro décadas de vida profissional, tornou-se uma figura de referência e influenciou gerações de artistas. No cinema, estreou-se em 1982 no filme "Silvestre", de João César Monteiro. Em 1994 chega à televisão. Foi Laurinda Sabino em "A Paz dos Anjos", uma telenovela portuguesa transmitida pela RTP, da autoria de José Fanha e Jorge Paixão da Costa.

No teatro, já trabalhou textos de Neil Simon e Feydeau. Mas só em 2004 vence o Globo de Ouro para "Melhor Atriz de Teatro" pelo seu desempenho em "A Cabra", de Edward Albee.


Em 1995, funda a Escola de Mulheres – Oficina de Teatro com a já falecida atriz e encenadora Fernanda Lapa. Anos mais tarde, em 2009 até 2013, é nomeada para dirigir o Teatro da Trindade, até onde chegou a levar a adaptação para teatro do romance "O Dia dos Prodígios", de Lídia Jorge.


Veja abaixo as escolhas desta cara bem conhecida da televisão e do teatro:


Artista preferido... "Pina Baush."

Livro favorito... "São muitos. Vou citar alguns, um pouco ao acaso: 'Orlando', de Virgínia Woolf; 'O Quarteto de Alexandria', de Lawrence Durrell - só este são quatro -; 'Cândido, ou O Optimismo', de Voltaire; 'O Ano da Morte de Ricardo Reis', de José Saramago; e 'Demian', de Herman Hesse."

O filme da sua vida... "Talvez 'Johnny Guitar', de Nicholas Ray, 'Amarcord', de Federico Fellini, ou '1900', de Bernardo Bertolucci.

Última Peça de teatro a que assistiu... "Assisti, em streaming, já durante a pandemia, a peça 'As Três Irmãs', de Anton Tchekhov, com encenação de Carlos Pimenta."

Série que não perde por nada... "A 'How to Get Away with Murder' ['Como Defender Um Assassino', em português], com a fantástica Viola Davis como protagonista."

A música que tem ouvido nonstop... "Chama-se 'Só um beijo' e é da Luísa e do Salvador Sobral."

Um restaurante a que volta vezes sem conta... "Agora só em take-away, mas é o Anyfood, no Restelo, o pequeno restaurante das minhas sobrinhas."

Um vinho que aconselha... "Vinho não posso beber, mas aconselho sempre o vinho da terra do meu Pai: Dão, da Adega Cooperativa de Silgueiros, ou Quinta da Falorca, produzido pelos meus primos."

A sua viagem de eleição... "Cruzeiro no Nilo."

Os tempos livres são para... "Agora que estou mais em casa leio e vejo séries ou filmes. Desconfiada, aproveito para fazer praia, no verão, e piscina, cinema, teatro, convívios com amigos e leitura, no inverno."

Começar bem o dia é com... "Alongamentos, quando há tempo, duche, fruta, café e tosta com queijo."

Uma memória... "Em 1955, tinha eu sete anos e já sabia ler, estava em Angola, na estação de comboios da Cáala - rebatizada Vila Robert Williams, graças aos ingleses que construíram o caminho de ferro de Benguela -, lembro-me de ler o que estava escrito nos azulejos, por cima de cada um dos três sanitários existentes. Aquilo foi a epifania para a consciência da dimensão da injustiça. Lia-se: 'Homens, senhoras, indígenas'. Perguntei o que significava a palavra 'indígena'. Primeiro, veio o significado semântico: 'Então, filha, aquilo diz-se sobre as pessoas que são do lugar a que nos estamos a referir'. 'Então os manos que nasceram cá têm de ir à casa de banho dos indígenas?', perguntei. Obtive uma resposta a custo: 'Neste caso, é para as pessoas de cor'. E eu: 'Então é a mãe que tem de ir àquela casa de banho?'. 'Ora essa, a mãe é uma senhora!' E lá acabei por ir percebendo, pelas respostas incomodadas, que a casa de banho era só para pretos e que ser mestiço é não ser de lado nenhum: na 'metrópole' éramos pretas - a nossa casa no Restelo era conhecida por 'Chalé das Pretas' - e toleradas porque vivíamos num chalé e nas colónias éramos brancas, igualmente toleradas exatamente pelo mesmo motivo.

Lema de vida... "Um poema de Fernando Pessoa: 'Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive."

A vida em pandemia... "Estava para estrear o espetáculo 'O Cerejal', de Anton Tchékhov , quando o novo confinamento foi decretado. Fizemos dois espetáculos e viemos para casa. Depois de dois meses de ensaios com máscaras e desinfetantes, foi uma grande frustração. Felizmente, estou a gravar a novela 'Bem me Quer', na TVI, e sempre saio de casa para trabalhar. Já estive em isolamento profilático duas vezes. Faço um teste rápido todas as semanas, mas não é fácil só tirar a máscara quando vamos gravar."