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Bucha. Aqui enche-se a barriga com os olhos

Diz-se designer gráfica mas ocupa-se de muitos outros ofícios. Já o seu passado está intimamente ligado ao universo da comida que, hoje, é parte importante da sua identidade. Joana Azevedo, de 30 anos, é a autora da "Bucha", um projeto nascido no Instagram que se debruça sobre a relação emocional entre o que vemos, desejamos e comemos.


Nesta conversa com a hAll, Joana mergulha fundo nas memórias de infância, de onde lhe ficaram imagens da mãe a empilhar torradas triangulares e mais. Fala do gosto pela comida - de ovos, em particular - e dos projetos que estão para sair da gaveta, convicta de que agora é o momento para criar as suas próprias oportunidades.


Muito resumidamente, o que é a "Bucha"?

A "Bucha" é uma montra das minhas experiências, dos meus delírios e da minha curiosidade em experimentar.


Porquê "Bucha"?

A conta de Instagram foi batizada no final de um dia quente no Porto. Lembro-me de estar sentada para o rio, com uma garrafa de vinho meia aberta e uma fatia de queijo mal trincada... A ideia para o nome foi quase imediata. Para onde vou levo uma bucha. Todos os dias a preparamos e a enchemos. E a "Bucha" é isso mesmo: é onde se enche a barriga com a boca e com os olhos. Onde se cozinha e experimenta com tudo. Onde mostro "Buchas" de comida, papel e design. No fundo, "Buchas" de experiências.


Então, podemos chamar-lhe uma conta de food design?

Não sou muito boa a arrumar as coisas em caixinhas... Considero que sou uma privilegiada por ter dois amores tão grandes [a comida e o design] e há já algum tempo que pensava em algo para conseguir que eles se dessem bem e até, quem sabe, viverem juntos. E parece que descobri. Usei o tempo extra que a pandemia me deu para me desafiar a pôr na mesa as minhas ideias, a juntar os meus conhecimentos e o meu gosto pela imagem, pelas formas e cores. Depois, substituí as formas digitais por alimentos de verdade e o match foi imediato. No meu entender, faz muito sentido criar novas ligações entre o que comemos e o design e explorar novas formas de mostrar os produtos, questionar paradigmas e romper a convencionalidade. Se tudo isto é food design, então sim. É uma página de food design.


Do seu ponto de vista, qual a relação entre a comida e o design?

Para além da boca, comemos sobretudo com os olhos e, por isso, acredito que estes dois mundos andam sempre de mãos dadas. Compor um prato, enaltecer ingredientes, expor um produto e falar sobre texturas, sabores e até cheiros através de imagens exige um pensamento estético. A capacidade de contar uma história e de "seduzir" está relacionada com os detalhes, as cores, as formas e os espaços. O "Ovo de codorniz", por exemplo, faz parte de um set que fiz para a Páscoa, através do qual queria falar sobre a minha relação quase compulsiva em comer ovos - como muitos e gosto deles de todas as formas. O desafio foi conseguir uma imagem graficamente poderosa, apetecível e rica só com um elemento, visto e feito de várias formas. O ovo tinha que ser o rei e foi.

No seu caso, essa ligação vem de onde?

Sem dúvida, da minha infância. A minha mãe sempre se dedicou a estimular a minha criatividade. Lembro-me que ela me surpreendia com torres de torradas triangulares e outro tipo de construção alimentar. Fazíamos caras com cascas de batatas e pigmentos com beterraba. Imaginávamos picadas de abelhas com tangerinas na ponta dos dedos e usávamos cascas de cebolas para os cabelos das bonecas que desenhava.


É à infância que vai buscar inspiração para fazer o tal match de que falava?

Ultimamente, a minha grande fonte de inspiração têm sido as histórias da minha família à volta da comida. Tenho passado muitas horas de lápis na mão a ouvir a minha mãe.


Que histórias são essas?

De Moçambique a Moimenta da Beira, a nossa história podia ser contada a partir de uma cozinha. Não tenho dúvidas. É uma história de enchidos fumados à mão, bolo de vinho do Porto, pirulitos de açúcar que a minha bisavó vendia em Moçambique, arroz de cabidela na praia com panela... No fundo, quero contar a minha história e a minha relação com a comida começando com todas as memórias que me antecederam e que me fizeram chegar exatamente a este ponto. Depois é só juntar o desejo de construir imagens.


Lembra-se do momento em que a sua relação com a comida se tornou algo criativo?

Quando estava na faculdade senti que tinha de esforçar-me para não acabar a comer as típicas massas com atum durante três anos. A minha casa acabou por ficar conhecida pelo sítio onde as pessoas iam matar saudades da sua própria casa com comida de tacho, picante e de conforto. Sempre gostei de experimentar tudo, virar ao contrário e fazer à minha maneira. Nunca fiz uma receita igual duas vezes. Aliás, nem gosto de seguir receitas. O que gosto mesmo é de preparar coisas salgadas, de perceber e arrojar na construção de sabores, inventar e arriscar com muito pouca técnica e sem qualquer presunção de chegar a nenhum lado a não ser à boca dos mais próximos.


Considera que o que os olhos não veem, a boca não come?

Tenho a certeza que os olhos comem primeiro que a boca e que são eles que comandam a experiência. Mas quando temos um prato à nossa frente o sabor e o cheiro são tudo. No entanto, não acho que o belo signifique algo perfeito e intocado. Uma cenoura torta ou com tamanho descompensado é lindíssima. Por trabalhar diariamente com formas, padrões e cores, transporto isso para o meu universo e isso faz-me apreciar ainda mais a comida, as suas texturas, cores, contrastes, espaços vazios e cheios. Às vezes compro abóboras de formatos diferentes porque sei que a minha cozinha vai ficar mais bonita, por exemplo.


Acredita que o design pode mudar a nossa relação com a comida e, de certa forma, melhorá-la?

O food design faz-nos saborear um prato, sentir as suas texturas crocantes e macias a partir de imagens poderosas sem nunca lhe chegar a tocar. Considero que essa é a grande força deste casamento e que os dois se potenciam.


Falando sobre a cozinha portuguesa... Diria que o sentido estético é uma preocupação?

Há muitas maneiras de se compreender um prato e saborear uma receita. Mas, acima de tudo, considero que a cozinha portuguesa tradicional está relacionada com histórias, sabores, cheiros e quantidades, quase sempre para partilhar. É como comer em casa, mas sem sujar as panelas.


Existe uma espécie de ditadura estética na cozinha de autor?

Quando me apercebi que estávamos a viver uma tendência em explorar a cozinha de autor senti que quase tudo "saía da mesma fornada". Mas não demorou muito até que se começasse a inovar e com um cunho muito pessoal de quem o faz. Há, aliás, cada vez mais projetos lindíssimos, arrojados e provocadores a saírem das cozinhas de autor.


O seu trabalho é uma provocação ao status quo?

A minha intenção é que o meu trabalho tenha a capacidade de provocar, quebrar paradigmas e desconstruir a forma como estamos habituados a ver a comida ou de como esperamos que uma receita seja ilustrada ou um produto vendido.


É uma perfecionista?

Tenho a certeza que sim, para o mal e para o bem. E isso é o que me faz sempre procurar mais, perceber, estudar, experimentar, investir muito em algo de alma e coração e perder noites a executar ideias malucas.


Em que é que está a trabalhar neste momento?

Ando a reviver memórias de quando a minha bisavó fazia pirulitos de açúcar para vender quando regressou a Portugal e a fazer experiências com açúcar e mel. Quero perceber como se comportam e de que forma poderei tirar partido de diferentes texturas e formas a partir do mesmo elemento. Quero construir e desconstruir essa memória na minha linguagem.


O que vem a seguir para a "Bucha"?

Agora que a página já tem o seu espaço, pretendo explorar ao máximo a potencialidade de cada elemento ou ingrediente, assim como testar e desconstruir, tornando tudo muito gráfico, visual e apetecível. Com tempo e resiliência quero tornar a "Bucha" reconhecível pela sua linguagem e começar a fazer parcerias com marcas e produtos.


Percorra a fotogaleria abaixo para conhecer o trabalho da "Bucha":