• Ana Rita Rebelo

Crítica de cinema: "Cruella"

Cruella

✶✶✶✶


Estaria perdoado por pensar que já viu isto no cinema: um embrulho que faz um vistão mas que é somente mais um filme-que-segue-a-receita-de-êxito-da-má-da-fita-com-um-lado-indulgente. Mas pode tirar daí o sentido. Isso não é inteiramente verdade. Para alívio de muitos, "Cruella" não é "Maléfica". Craig Gillespie ("I, Tonya”) não veio aviar receita. Preservando a natureza vil de Cruella, o argumento é relativamente bem contado e curioso. Não é um filme convencional da Disney - por isso, nem tudo é ganho.


A primeira parte da fita segue a vida da pequena Estella (impecavelmente encarnada por Tipper Seifert-Cleveland), uma órfã que faz amizade com um par de jovens ladrões - Jasper (Joel Fry) e o hilariante Horace (Paul Walter), os "capangas" de Cruella - que, em conjunto, constroem uma vida de crime nas ruas londrinas. Gillespie convoca Londres dos anos 70, a meio da revolução do punk rock, para mostrar os primeiros tempos rebeldes da tragicómica e esquizofrénica Cruella de Vil (alter-ego de Estella), possuída pelo espírito de Harley Quinn, criando proximidade a uma personagem enraizada na memória do espetador.


Em absoluto controlo do seu talento, a oscarizada Emma Stone ("La La Land") faz-se ao papel com garra. É um trabalho limpinho da atriz, não fosse ela uma daquelas estrelas que obrigam por si só a ver um filme. A sua Estella é um patinho-feio com talento para a moda que se torna num cisne-negro nas mãos gratuitamente cruéis da Baronesa von Hellman, interpretada pela vencedora de dois Óscares, Emma Thompson ("Howards End" e "Sense & Sensibility"). Da Baronesa espere carisma no máximo. É uma espécie de versão mais canalha e amoral de uma Miranda Priestly, estupidificada pela total ausência de decência. A interação entre as Emmas é o coração da história e, muito provavelmente, a razão pela qual "Cruella" resulta tão bem.


Compreendem-se algumas reações semi-desiludidas. Ainda assim, não há muito a lamentar. A prequela não traz propriamente novidade, nem é pioneira, mas entrega um trabalho certeiríssimo de casting, melodrama familiar, ação, comédia, um guarda-roupa de encher o olho e uma banda sonora de excelência. É puro entertainment, sem maçar demasiado, e vale a deslocação ao cinema, sobretudo para o público adulto nostálgico do original "101 Dálmatas" de 1961 - embora as semelhanças sejam rasas.


Com argúcia, Gillespie desvincula-se ao máximo da versão live-action de 1996, onde Glenn Close interpreta a vilã. Também quase nos consegue fazer esquecer que o filme se arrasta por mais de duas horas (com uma cena incluída nos créditos finais), que tem personagens a mais e que o argumento ziguezagueia, esquivando-se com ligeireza do real propósito de Cruela: raptar dálmatas para satisfazer uma obsessão com pele animal. Mas que isso não impeça "Cruella" de entreter o público que merece.