• Ana Rita Rebelo

Crítica de cinema: "Viúva Negra"

Viúva Negra

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"Viúva Negra" tem energia, é certo, mas sabe a pouco e temos para nós que chega tarde, o que nos limita o entusiasmo. O filme - o primeiro da Marvel pós pandemia - exibe um desejo de reconhecimento a Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) que, pelo menos, em parte terá sido logrado, mas aquelas duas horas nunca chegam a estar ao nível da sequência dos créditos iniciais, ao som de um cover de "Smell Like Teen Spirit". A história, parece-nos, funcionaria melhor no pequeno que no grande ecrã.


O "thriller de espionagem repleto de ação" - foi o que nos venderam - decorre entre os filmes "Capitão América: Guerra Civil" (2016) e "Vingadores: Guerra do Infinito" (2018). Apoiado num elenco forte e com certeiras modelações de tom, é uma prequela sobre Romanoff embrulhada no mais óbvio dos caminhos. A ideia de desmontar o mistério sobre o seu passado é válida, mas parece-nos mais simpática do que bem conseguida.


Ao menos isto: se a ideia da Marvel é explorar o women power, é mil vezes preferível que a tarefa vá parar às mãos de uma Cate Shortland ("Somersault" e "Lore"). É refrescante, por uma vez, ver um filme da companhia sobre uma mulher, realizado por uma mulher e protagonizado por três mulheres (Scarlett Johansson, Florence Pugh e Rachel Weisz).


Um bocadinho perdido em temas sisudos, a Marvel volta a ver-se às aranhas com questões sociais, raramente aprofundados, como a falta de livre arbítrio das "viúvas negras". O que compensa é a entrega dos atores. A entrada em cena da inglesa Florence Pugh ("Mulherzinhas") como Yelena, a irmã arisca de Natasha treinada pelas forças soviéticas, traz um empate técnico entre Pugh e Johansson ("O Amor é um Lugar Estranho" e "Marriage Story"). É fácil acreditar nesta dupla virtuosa. As interações entre elas arrancam humanidade e uma mão cheia de momentos de desamparo à cerebral Romanoff, trazendo-lhe, por breves momentos, a ilusão de uma felicidade inocente. Será um gosto voltar a ver Yelena no grande ecrã.


Os papás russos adotivos Melina Vostokoff (Weisz) e Alexei Shostakov (David Harbour) completam esta pseudo-família de espiões. A tensão (de vários níveis) entre eles faz-se de pura técnica e o humor não foge do esperado. Harbour e Pugh são, aliás, o alívio cómico do filme, acessível aos não-iniciados nesta saga de super-heróis, com início em 2008.


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