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Posso pão? Parece apenas uma forma engraçada de falar, mas já preocupa pais e especialistas

  • 7 de jul.
  • 2 min de leitura

Há uma pergunta que está a repetir-se em muitas consultas de terapia da fala: porque é que tantas crianças estão a eliminar os verbos das frases?



"Posso pão?", "Posso água?", "Eu casa.", "Eu brincar." Para muitos pais, estas expressões fazem parte do dia a dia e são vistas apenas como uma fase do desenvolvimento infantil. No entanto, terapeutas da fala alertam que a simplificação excessiva da linguagem merece atenção, sobretudo quando se prolonga para além do esperado.


Segundo Diana Moreira, terapeuta da fala com especialização em neuropsicologia pediátrica, aprender a falar não passa apenas por adquirir vocabulário. É também um processo de aprendizagem da forma como as palavras se organizam para construir significado.


Durante os primeiros anos de vida, as crianças desenvolvem competências morfossintáticas, aprendendo a utilizar verbos, artigos, preposições e pronomes, bem como a estruturar corretamente as frases. Entre os 18 e os 24 meses, é habitual surgirem combinações simples de duas palavras, como "quero bola", "carro papá" ou "mamã anda".


Diana Moreira, terapeuta da fala com especialização em neuropsicologia pediátrica
Diana Moreira, terapeuta da fala com especialização em neuropsicologia pediátrica

A partir dos dois anos, espera-se uma evolução gradual para frases mais completas. Entre os três e os quatro anos, a maioria das crianças já consegue utilizar estruturas com sujeito, verbo e complemento, fazer perguntas, relatar acontecimentos e manter pequenas conversas. O problema surge quando essa evolução não acontece ou quando uma criança que já utilizava frases mais elaboradas regressa a formas de expressão muito simplificadas.


Na prática clínica, Diana Moreira refere que tem observado um número crescente de crianças que recorrem a frases reduzidas em idades nas quais já seria esperado um discurso mais desenvolvido. Entre as possíveis explicações estão a diminuição do tempo de interação entre adultos e crianças, a exposição cada vez mais frequente aos ecrãs e a redução das conversas no contexto familiar. "As crianças aprendem a falar ouvindo linguagem organizada. Precisam de ouvir frases completas todos os dias. Não basta compreender; é necessário participar na conversa."


Como devem os pais responder?


A especialista chama ainda a atenção para um comportamento frequente entre os próprios adultos. Na tentativa de facilitar a comunicação, muitos acabam por simplificar excessivamente a linguagem que utilizam com as crianças, recorrendo a expressões como "queres água?", "vamos papa?", "calçar sapato" ou "hora cama".


Quando uma criança pequena diz "Posso pão?", a recomendação não passa por corrigir constantemente o erro. O adulto deve responder utilizando a estrutura correta. "Claro. Podes comer pão", exemplifica Diana Moreira.


Nos casos de crianças mais velhas, a estratégia pode passar por incentivar a reflexão sobre a frase. Perante a pergunta "Posso pão?", o adulto pode responder: "Mas o que queres fazer ao pão? Posso dormir pão ou posso comer pão?"


A especialista alerta ainda que a simplificação persistente da linguagem pode estar associada a perturbações da linguagem, dificuldades morfossintáticas ou outras alterações do desenvolvimento comunicativo. Por isso, recomenda que os pais observem não apenas o número de palavras que a criança utiliza, mas a qualidade da sua comunicação. Consegue construir frases? Conta o que aconteceu durante o dia? Faz perguntas? Utiliza verbos corretamente? É compreendida por pessoas fora do círculo familiar?

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