Crítica. "Hamnet": antes do génio, a dor. E algumas lágrimas
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O filme de Chloé Zhao, baseado no romance de Maggie O’Farrell, estreou a 5 de fevereiro nas salas de cinema portuguesas.

★★★★☆
Já vimos Shakespeare adaptado dezenas de vezes. "Hamnet" opta por outro caminho: ignora o palco e concentra-se na vida. E ao fazê-lo, tira o dramaturgo do pedestal e devolve-o a um lugar de vulnerabilidade.
Realizado por Chloé Zhao, vencedora do Óscar por "Nomadland" (2020) e agora nomeada a seis Globos de Ouro com este filme, incluindo Melhor Filme, “Hamnet” afasta-se do aparato. Zhao escolhe filmar o homem antes do génio. Estamos na Inglaterra de 1580 e William ainda não é Shakespeare. É um tutor de latim ambicioso, mas com pouco dinheiro, que se apaixona por Agnes, uma mulher de espírito livre.
Jessie Buckley domina o filme. A sua Agnes vive ligada à natureza e a tudo aquilo que não se explica. Mais contido, Paul Mescal constrói um Will Shakespeare dividido entre o amor e a necessidade de escapar para Londres, onde o teatro começa a ganhar palco.
Baseado no romance de Maggie O’Farrell, "Hamnet" é, acima de tudo, um filme sobre luto. Quando a tragédia atinge a família, Zhao recusa o melodrama "fácil". O que há é um vazio que se instala e altera tudo. A dor infiltra-se de forma quase silenciosa e corrói.
O ritmo é lento. Propositadamente lento. Para alguns, poderá parecer excessivamente contemplativo. Para outros, é precisamente essa contenção que o torna diferente. O que realmente distingue "Hamnet" das inúmeras adaptações shakespearianas é, aliás, esta perspetiva: não vemos a encenação da peça, mas a sua gestação emocional. A arte nasce da ferida e Zhao filma-la com respeito e humanidade.
"Hamnet" estreou a 5 de fevereiro nos cinemas portugueses como um dos filmes mais promissores dos últimos tempos. Um daqueles para quem acredita que a dor pode gerar beleza.
Eis o trailer abaixo:




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