Chamamos-lhes “filhos” e sofremos quando partem. Porque nos ligamos tanto aos nossos animais?
Não falam connosco, mas aprendemos a interpretar os seus comportamentos. Não são pessoas, mas chamamos-lhes família. E, quando morrem, podemos sentir um luto profundo. Afinal, o que explica este vínculo?

Já não vivem apenas connosco. Para muitas pessoas, os animais de estimação passaram a ocupar um lugar só seu dentro da própria ideia de família. Chamamos-lhes "filhos de quatro patas" e, entre cuidados e rotinas, constroem-se vínculos que podem tornar-se tão importantes quanto difíceis de explicar a quem nunca os viveu.
“A relação que estabelecemos com um animal de companhia pode ser emocionalmente muito significativa porque envolve vários dos mecanismos que estão na base dos vínculos humanos: proximidade, cuidado, previsibilidade, confiança e experiências partilhadas ao longo do tempo", começa por explicar a psicóloga Andreia Filipe Vieira, em entrevista à hAll, a propósito Dia Mundial do Animal, assinalado este domingo, 4 de outubro.
Um animal de estimação, sublinha, "está presente na nossa vida quotidiana de uma forma muito concreta. Recebe-nos quando chegamos a casa, acompanha determinadas rotinas, procura o nosso contacto e responde aos nossos estados emocionais e comportamentos". "Essa presença consistente pode criar uma sensação de pertença e de segurança muito importante."
Por outro lado, "é também importante perceber que o vínculo não é apenas aquilo que o animal "nos dá". É uma relação construída". "Existe uma experiência de reciprocidade: eu cuido de ti e tu fazes parte da minha vida. Sentir-se necessário e emocionalmente ligado a outro ser pode contribuir para um sentimento de propósito e pertença", diz.
"Podemos considerar um cão um elemento muito importante da família e, simultaneamente, reconhecer que ele não é uma criança e que não tem as mesmas necessidades."
Talvez seja por isso que "filho de quatro patas", "mãe de cão" e "pai de gato" tornaram-se expressões comuns. Mas chamar "filho" a um patudo não significa necessariamente que alguém acredite estar perante uma relação igual à que existe entre pais e filhos. "A linguagem que utilizamos ajuda-nos a organizar e a dar significado às nossas experiências. Quando uma pessoa diz 'sou mãe de um cão', por exemplo, não significa necessariamente que considere que a relação com o animal é literalmente equivalente à parentalidade humana. Pode estar a expressar que existe ali uma relação de cuidado, responsabilidade, afeto e pertença que é, para aquela pessoa, muito significativa", esclarece a psicóloga.
É aqui que surge uma distinção importante. Tratar um animal como membro da família não é necessariamente humanizá-lo. "Podemos considerar um cão um elemento muito importante da família e, simultaneamente, reconhecer que ele não é uma criança e que não tem as mesmas necessidades psicológicas, sociais ou fisiológicas que uma pessoa."
A antropomorfização começa quando lhe atribuímos características, pensamentos ou intenções humanas e, nesse processo, podemos esquecer que estamos perante outra espécie. E é fácil cair nessa "armadilha". Como os animais não nos conseguem explicar verbalmente o que sentem, tentamos interpretar os seus comportamentos através daquilo que conhecemos.
"Parece-me triste." Mas estará?
Contudo, há um risco quando a interpretação passa a ser tratada como certeza. Aquilo que entendemos como "vingança", "ciúme", "culpa" ou "desobediência por maldade" pode ter outras explicações, relacionadas com stress, medo, aprendizagem, contexto ou necessidades específicas. "Podemos dizer 'parece-me que ele está triste' e procurar compreender o comportamento, sem assumir automaticamente que a experiência interna do animal é exatamente igual à nossa."
Mais: "Um animal pode ser uma fonte muito importante de apoio, mas não substitui necessariamente relações humanas, acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando estes são necessários".
Porque é que perdê-los pode doer tanto?
Mas se é no dia a dia que esta relação ganha força, é também aí que a ausência mais se faz sentir, "porque não estamos apenas a perder um animal: estamos a perder uma relação". É por esse motivo que o luto pode ser intenso, apesar de nem sempre ser reconhecido pelos outros.
"Era só um animal" pode parecer uma tentativa de relativizar a perda, mas pode deixar quem está de luto com a sensação de que não tem direito ao sofrimento que sente. "O luto não é proporcional ao estatuto social ou biológico do ser que morreu. É influenciado pela natureza do vínculo, pela história partilhada e pelo significado que aquela relação tinha para a pessoa", lembra a psicóloga.
No fundo, "uma relação saudável com um animal exige duas coisas que podem coexistir: permitirmo-nos criar um vínculo afetivo profundo e, simultaneamente, respeitarmos aquilo que o animal é. Não precisamos de o transformar numa pessoa para reconhecer que ele pode ocupar um lugar muito importante na nossa vida", resume Andreia Filipe Vieira.




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