Crítica. "Sacrifício" pergunta até onde estamos dispostos a ir por aquilo em que acreditamos
Anya Taylor-Joy acredita que tem missão: purificar a Terra. Chris Evans acaba escolhido para fazer parte do plano. "Sacrifício", a nova sátira de Romain Gavras, estreia esta quinta-feira, 1 de outubro, nos cinemas portugueses.

★★★☆☆
Sacrifício é um título simples para um filme que não tem propriamente ambições modestas. Todos os personagens, de uma maneira ou de outra, estão dispostos a abdicar de alguma coisa em prol daquilo em que acreditam. Romain Gavras pega nessa ideia e leva-a ao limite numa sátira onde fé, ego e poder convivem perigosamente.
Tudo começa quando Joan (Anya Taylor-Joy) perde a mãe num incêndio e encontra numa misteriosa profecia vulcânica uma missão: nada menos do que purificar a Terra. Sim, leu bem.
O plano leva-os até uma glamorosa gala de beneficência, cheia de celebridades, multimilionários e discursos sobre como tornar o mundo melhor. O grupo invade a festa e escolhe três reféns para um ritual de sacrifício: o seu herói, Mike Tyler (Chris Evans), uma estrela de cinema em plena crise existencial, o seu vilão, Ben Bracken (Vincent Cassel), um multimilionário frio e pragmático, e Katie (Ambika Mod), uma artista a quem a vida não tem sorrido.
Nas mãos erradas, "Sacrifício" poderia transformar-se num daqueles filmes tão empenhados em dizer coisas importantes sobre o mundo que se esquecem de contar uma boa história. Felizmente para todos, não é isso que acontece. O filme leva as personagens e as suas convicções suficientemente a sério para que nos interessemos por elas, sem nunca perder de vista o ridículo que existe naquele universo.
No meio deste caos está Chris Evans e há uma certa ironia na escolha. Depois de tantos anos habituados a vê-lo salvar o mundo, é particularmente divertido encontrá-lo na pele de uma estrela de cinema também conhecida pelos seus papéis de herói.
Anya Taylor-Joy tem uma tarefa diferente. Joan parece inabalável nas suas convicções, mas nunca completamente transparente. A atriz explora muito bem essa distância ao deixar-nos aproximar da personagem sem nunca permitir que a decifremos por completa.
Mike e Joan não podiam ser mais diferentes. Ela acredita tanto que está disposta a destruir tudo em nome dessa crença. Já ele procura desesperadamente alguma coisa em que acreditar. É desse choque entre a certeza de um e as dúvidas do outro que nasce uma das relações mais interessantes do filme.
Quem viu "Athena" (2022) sabe que Romain Gavras não costuma deixar a imagem para segundo plano. Em "Sacrifício", volta a fazer dela uma das grandes forças do filme. Com Matias Boucard novamente na direção de fotografia, paisagens, arquitetura e multidões são muito mais do que cenário.
"Sacrifício" poderia ter-se perdido entre todas as ideias que quer discutir. Poderia ter-se levado demasiado a sério e, por vezes, chega perigosamente perto disso. Mas a verdade é que saímos da sala de cinema sem saber muito bem o que acabámos de ver e ainda a pensar nisso, no melhor sentido possível.
Eis o trailer:




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