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Nem toda a violência deixa marcas. Os sinais numa relação que não deve ignorar

há 2 horas
4 min de leitura

A violência numa relação nem sempre começa com gritos, ameaças ou agressões. Por vezes, instala-se de forma silenciosa, através de comportamentos de controlo que podem ser confundidos com cuidado, preocupação ou até ciúme. No Dia Internacional da Não Violência, a psicóloga e sexóloga Sandra Neto explica os sinais que não devem ser ignorados.



"Quando pensamos em violência numa relação, é frequente que a primeira imagem que nos apareça seja a de uma agressão física. Um empurrão, uma bofetada, um murro. Mas nem toda a violência deixa marcas no corpo." Quem o explica é Sandra Neto, psicóloga e sexóloga no Sobre Nós, em Guimarães, em entrevista à hAll a propósito do Dia Internacional da Não Violência, que se assinala esta sexta-feira, 2 de outubro.


Há violência que acontece através de humilhações, insultos, ameaças, intimidação ou chantagem emocional. É psicológica, mas pode assumir outras formas: sexual, quando existem atos ou contactos sem consentimento; social, quando há um afastamento progressivo da família e dos amigos; ou financeira, quando uma pessoa passa a controlar o dinheiro e os recursos da outra.


Hoje, um simples telemóvel pode tornar-se uma ferramenta de controlo. Saber onde o parceiro está, acompanhar o que faz nas redes sociais, questionar likes e comentários, pedir fotografias para confirmar a localização, ler mensagens sem consentimento ou exigir palavras-passe são alguns dos exemplos apontados pela psicóloga.


O problema é que a escalada nem sempre o controlo se apresenta como tal. "Pode começar num 'não gosto que saias com essa pessoa', passar para 'não quero que voltes a estar com ele' e chegar a 'se fores, temos um problema'."


Esta mudança pode acontecer de forma gradual, entre momentos de carinho, pedidos de desculpa e promessas de mudança. Pelo caminho, "aquilo que seria inaceitável há um ano pode, entretanto, ter-se tornado ‘normal’ dentro daquela relação". "Talvez este seja um dos aspetos mais perigosos da violência que não vemos: não só pode limitar a nossa liberdade, como pode fazer-nos duvidar do direito que temos a ela."


"Sem darmos conta, aquilo que começou como uma escolha passa a ser uma obrigação". Para Sandra Neto, é esta uma das diferenças fundamentais entre cuidado e controlo: "Cuidar tem em conta a outra pessoa, mas deixa espaço para que essa pessoa continue a escolher". A questão decisiva é: "Existe liberdade para dizer não?"


"Andar em bicos de pés" para evitar a reação do parceiro, deixar de fazer aquilo de que se gosta ou de estar com determinadas pessoas para prevenir conflitos, ser alvo recorrente de críticas ou ridicularização, ver os próprios sentimentos desvalorizados ou pedir desculpa sem perceber bem porquê são alguns dos sinais para os quais a especialista chama a atenção. Porém, há mudanças menos óbvias que também merecem atenção. Perceber que se tem menos confiança em si próprio ou que se vive com mais ansiedade do que antes da relação pode ser uma delas.


"Diagnósticos do TikTok"


A psicóloga e sexóloga constata que nunca se falou tanto sobre relações nas redes sociais. Gaslighting, love bombing, red flags ou narcisismo entraram no vocabulário de todos, mas nem sempre são usados corretamente. Sandra Neto alerta para o risco de transformar estes conceitos em "diagnósticos do TikTok".


Mais importante do que encontrar um rótulo, explica a psicóloga, é perceber se existe um padrão: se os limites são repetidamente ultrapassados, se há controlo e se a outra pessoa assume responsabilidade pelo que faz ou acaba por culpar o parceiro.


A especialista lembra também que "podemos reconhecer que algo nos está a destruir e, ainda assim, não encontrar força, segurança ou condições para o deixar. E isto não significa falta de consciência, de inteligência ou de vontade".


Porque é que ficamos numa relação que nos faz mal?


São vários os fatores que podem dificultar uma separação. O ciclo da violência pode alternar períodos de tensão e episódios de agressão ou humilhação com arrependimento, carinho e fases de "lua de mel", alimentando a expectativa de que a relação vai mudar. A isso juntam-se anos de vida em comum, filhos, uma casa, projetos, dependência financeira ou uma rede de amizades partilhada. E também o conflito entre duas ideias difíceis de conciliar: "amo esta pessoa" e "esta pessoa está a fazer-me mal".


O medo pode pesar igualmente na decisão e há ainda a questão de segurança. Em situações de violência, o período de separação pode representar um risco acrescido e a saída deve, por isso, ser preparada tendo também esse fator em conta.


"O primeiro passo raramente é sair. Muitas vezes, é falar" com alguém de confiança. Procurar um psicólogo ou recorrer a um técnico de apoio à vítima pode ajudar a perceber o que está a acontecer e quais são as opções disponíveis.


Também pode ser útil registar episódios, datas, mensagens, ameaças ou situações de controlo, sobretudo quando a própria pessoa começa a duvidar daquilo que viveu. Recuperar o contacto com familiares e amigos e informar-se sobre apoio psicológico, jurídico, social e financeiro ou soluções de alojamento são outros passos possíveis.


Quando existe risco para a segurança, Sandra Neto recomenda que seja preparado um plano com apoio especializado. Confrontar o parceiro ou anunciar uma separação pode não ser, nestes casos, a opção mais segura.


E o que pode fazer quem está de fora? Ouvir sem pressionar, falar sobre comportamentos concretos, acreditar naquilo que a pessoa sente, respeitar o seu tempo e oferecer ajuda prática. "Ajudar alguém a sair de uma relação que lhe faz mal não é agarrá-la pela mão e puxá-la para fora mas sim ajudá-la a recuperar, pouco a pouco, a sensação de que tem escolha, que pode confiar naquilo que sente e que não está sozinha."

Quem pode e deve contactar em caso de necessidade?


Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica: 800 202 148 | SMS 3060 (24 horas por dia)


Linha de Apoio à Vítima da APAV: 116 006 (dias úteis, das oito às 23 horas)


Aconselhamento psicológico do SNS 24: 808 24 24 24 selecionar depois opção 4 (24 horas por dia)


SOS Voz Amiga: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (15:30 à meia-noite e meia)


Conversa Amiga: 925 512 884 | 925 512 887 | 808 237 327 | 210 027 159 (15 às 22 horas)


Telefone da Amizade: 228 323 535 | 222 080 707 (16 às 23 horas)


Escutatório, Linha de apoio psicológico, Fundação S. João de Deus: 924 101 462 (10:30 às 12:30 e das 14:30 às 16:30)

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