"Nem tudo o que dói é doença." Estamos a transformar emoções normais em diagnósticos?
Falamos mais de saúde mental, procuramos informação e aprendemos a reconhecer sinais de sofrimento psicológico, mas será que estamos também a tornar-nos menos tolerantes à tristeza, à ansiedade e à frustração? A propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinala a 10 de outubro, falámos com a psicóloga Patrícia Câmara.

Quem nunca se identificou com um vídeo sobre ansiedade, reconheceu alguns sintomas de uma perturbação ou se perguntou se aquilo que estava a sentir era normal? A saúde mental está cada vez mais presente nas nossas conversas e nas redes sociais. Mas, pelo caminho, corremos o risco de confundir emoções que fazem parte da vida com sinais de doença.
"Falamos muito mais de saúde mental e isso é importante, mas falar mais não significa necessariamente compreender melhor", sublinha Patrícia Câmara, psicóloga e presidente da Sociedade de Psicossomática, em entrevista à hAll. Para a especialista, a maior abertura para falar sobre o tema trouxe também novos desafios. "Parece-me que estamos a substituir o silêncio e o estigma por uma tendência para classificar e diagnosticar tudo. Talvez precisemos de passar de uma cultura que fala de saúde mental para uma cultura que pensa a saúde mental."
Estar triste, sentir ansiedade ou passar por períodos de frustração não significa necessariamente que exista uma perturbação psicológica. São emoções que fazem parte da vida e que, segundo Patrícia Câmara, não devem ser automaticamente interpretadas como sinais de doença. "Seria até preocupante que não reagíssemos emocionalmente àquilo que nos acontece", diz. O problema, acrescenta, "é que vivemos numa sociedade cada vez mais intolerante ao sofrimento, onde estar bem parece ter-se transformado numa obrigação. A saúde mental não é a ausência de sofrimento, é também a possibilidade de o viver, compreender e transformar. Nem tudo o que dói é doença".
Nas redes sociais, multiplicam-se os vídeos que associam emoções e comportamentos do dia a dia a sintomas de perturbações psicológicas, levando muitas pessoas a questionar se aquilo que sentem é sinal de doença. A psicóloga reconhece que "a informação útil ajuda-nos a pensar e a fazer perguntas", mas refere que "a informação simplista oferece respostas demasiado rápidas".
Um mesmo comportamento pode ter significados diferentes consoante a pessoa, a sua história e as circunstâncias em que ocorre. Por isso, "não podemos transformar cinco características num diagnóstico. Preocupa-me esta tendência para classificar tudo e todos. Conhecer o nome de uma perturbação não é o mesmo que compreender uma pessoa".
Além do risco de autodiagnóstico, Patrícia Câmara identifica outra consequência: "Em vez de perguntarmos o que estamos a viver e porquê, procuramos uma categoria onde encaixar. Um diagnóstico pode ajudar a compreender o sofrimento, mas nunca deve substituir a singularidade de quem sofre".
Dormir bem, fazer exercício físico e aprender a gerir as emoções são recomendações frequentes quando se fala de saúde mental. Mas, para Patrícia Câmara, estes hábitos, embora importantes, não são suficientes para explicar o bem-estar psicológico. A psicóloga destaca a importância das relações pessoais, do sentimento de pertença e das condições em que vivemos. "Precisamos de vínculos, de pertença, de reconhecimento, de tempo para pensar, conversar, criar e até não fazer nada. E precisamos de condições coletivas que favoreçam tudo isto."
"Não precisamos de estar doentes para procurar ajuda, nem de chegar ao limite para reconhecer que precisamos dela."
Na sua perspetiva, a saúde mental continua a ser tratada como uma responsabilidade individual, deixando para segundo plano a influência do ambiente social, relacional, cultural e político. "Não podemos continuar a pedir às pessoas que se adaptem individualmente a condições coletivas que podem estar a contribuir para o seu adoecimento", defende.
É também por isso que considera necessário alargar a discussão sobre o autocuidado. "Talvez tenhamos começado a falar tanto de cuidar de nós próprios que nos estejamos a esquecer de perguntar como estamos a cuidar uns dos outros."
Quando é altura de procurar ajuda psicológica?
Se nem toda a tristeza ou ansiedade é sinal de doença, como distinguir as oscilações emocionais normais de situações que justificam acompanhamento profissional? Patrícia Câmara aponta a persistência e a intensidade do sofrimento como dois dos principais sinais de alerta, mas há outro indicador a considerar: "Quando começamos a perder liberdade psíquica, quando nos sentimos aprisionados em determinados estados emocionais ou em situações que se repetem e que não conseguimos transformar".
Contudo, a psicóloga sublinha que não é necessário esperar que o sofrimento se torne incapacitante para procurar acompanhamento. "Não precisamos de estar doentes para procurar ajuda, nem de chegar ao limite para reconhecer que precisamos dela."
Para Patrícia Câmara, ajudar não significa apresentar soluções. Em muitos casos, a disponibilidade para ouvir pode ser mais importante do que tentar encontrar uma resposta para aquilo que a outra pessoa está a viver. "Vivemos numa cultura muito orientada para encontrar soluções, mas nem sempre quem sofre precisa de conselhos ou de respostas. Muitas vezes precisa simplesmente de alguém que consiga escutar sem julgar, desvalorizar ou tentar resolver imediatamente."
A especialista faz ainda questão de distinguir o apoio de amigos e familiares do acompanhamento prestado por profissionais de saúde mental. "Não precisamos de nos transformar em psicoterapeutas dos nossos amigos ou familiares. Uma amizade não é uma psicoterapia e ainda bem."
Quem pode e deve contactar em caso de necessidade?
Aconselhamento psicológico do SNS 24: 808 24 24 24 selecionar depois opção 4 (24 horas por dia)
SOS Voz Amiga: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (15:30 à meia-noite e meia)
Conversa Amiga: 925 512 884 | 925 512 887 | 808 237 327 | 210 027 159 (15 às 22 horas)
Telefone da Amizade: 228 323 535 | 222 080 707 (16 às 23 horas)
Escutatório, Linha de apoio psicológico, Fundação S. João de Deus: 924 101 462 (10:30 às 12:30 e das 14:30 às 16:30)




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