O que o riso revela sobre nós (mesmo quando não estamos bem)
- Ana Rita Rebelo
- 19 de jan.
- 3 min de leitura
Rir não é apenas uma resposta à felicidade. Andreia Filipe Vieira, psicóloga clínica, explica como o riso atua no corpo, no cérebro e na forma como nos ligamos aos outros.

Rimos quando estamos felizes, nervosos, desconfortáveis ou simplesmente para quebrar o silêncio. Mas, por trás de uma gargalhada, acontecem processos complexos que envolvem o corpo, o cérebro e as emoções.
"Do ponto de vista corporal e neurobiológico, o riso ativa múltiplos sistemas ao mesmo tempo", começa por explicar à hAll a psicológa clínica Andreia Filipe Vieira, psicóloga clínica, a propósito do Dia Internacional do Riso, que se assinalou este domingo, a 18 de janeiro. A responsável refere que há uma libertação de químicos associados ao prazer e ao alívio da dor, enquanto o corpo "entra, ainda que por instantes, num modo de maior regulação".
Contudo, nem todo o riso é sinónimo de bem-estar. "Há risos que protegem do contacto com emoções mais difíceis", alerta.
Quando rimos, o que está realmente a acontecer dentro de nós?
Do ponto de vista corporal e neurobiológico, o riso ativa múltiplos sistemas ao mesmo tempo. Há uma libertação de endorfinas e dopamina, associadas ao prazer e à redução da dor, e uma diminuição dos níveis de cortisol, a hormona do stress. A respiração torna-se mais profunda, o tónus muscular altera-se e o sistema nervoso entra, ainda que por instantes, num modo de maior regulação.
Sigmund Freud, pai da psicanálise, descrevia o sorriso como um momento em que a energia emocional acumulada encontra uma via de expressão menos dolorosa. Rimos quando algo se torna suportável, quando o conflito interno abranda ou quando conseguimos, por um instante, tomar distância do que nos pesa.
Em termos emocionais, o riso pode traduzir alívio, cumplicidade, surpresa, ternura e, por vezes, também defesa. Nem todo o riso significa bem-estar: há risos que protegem do contacto com emoções mais difíceis.
O impacto do riso é apenas momentâneo?
O efeito imediato do riso é claro: alívio, leveza, sensação de bem-estar. Mas o seu impacto pode ir além do momento, sobretudo quando o riso acontece em contexto relacional.
Rir com regularidade, especialmente em relações significativas, contribui para uma maior sensação de segurança emocional e de pertença. Do ponto de vista clínico, experiências repetidas de prazer partilhado ajudam a construir recursos internos de regulação emocional. Não "resolvem" o sofrimento, mas tornam-no mais pensável e menos solitário.
"O riso não é reprimido por acaso: é o sinal de que algo está a pedir atenção, cuidado ou escuta. Não é uma falha pessoal, é um indicador clínico."
Rir sozinho é o mesmo que rir com os outros?
Não exatamente. Rir sozinho pode ser prazeroso e regulador. Há um riso íntimo, ligado ao humor interno, à imaginação, à capacidade de brincar consigo próprio. Esse riso revela uma boa relação com o mundo interno.
No entanto, o riso partilhado tem uma função relacional única. Quando rimos com alguém, ativam-se mecanismos de sincronização emocional: sentimos que estamos “em sintonia”. O riso torna-se uma linguagem afetiva que cria laço, reduz distância e reforça vínculos. Em termos psicanalíticos, é um momento de encontro entre mundos internos. Por isso, o riso tem um papel central na forma como nos ligamos emocionalmente: comunica segurança, reconhecimento e, muitas vezes, aceitação mútua.
O que significa "perder" a capacidade de rir em fases de stress ou cansaço?
Clinicamente, esta é uma observação muito relevante. Quando alguém refere que já não consegue rir, isso costuma indicar sobrecarga emocional. Em estados de stress prolongado, ansiedade ou depressão, a energia psíquica fica ocupada com a sobrevivência emocional, com a gestão da tensão, do medo ou da exaustão. O espaço interno para o humor e a espontaneidade reduz-se.
Poder rir implica uma certa liberdade interna. Quando essa liberdade desaparece, o riso não é reprimido por acaso: é o sinal de que algo está a pedir atenção, cuidado ou escuta. Não é uma falha pessoal, é um indicador clínico.
O riso pode ser treinado ou tem de ser espontâneo?
Esta é uma questão importante. O riso saudável, do ponto de vista emocional, está ligado à espontaneidade e à autenticidade. Um riso forçado pode ter benefícios fisiológicos pontuais, mas não substitui o riso que emerge de um contacto verdadeiro consigo próprio ou com o outro.
Em clínica, não se "treina" o riso; trabalha-se para criar as condições internas que o tornam novamente possível: mais segurança, menos autoexigência, maior contacto emocional. Quando essas condições existem, o riso surge não como obrigação, mas como expressão de vida psíquica.




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