Um mês sem álcool? O Dry January visto por especialistas
- Ana Rita Rebelo
- há 14 horas
- 4 min de leitura
Pousar o copo pode parecer apenas mais uma resolução de ano novo, mas o Dry January levanta questões que vão além da simples abstinência. O que muda no corpo? E na forma como lidamos com o stress, o sono ou o convívio? A hAll questionou a psicóloga Dénis Valéria Sousa e a nutricionista Lillian Barros.

Durante muito tempo, janeiro foi apenas o mês mais comprido do calendário, marcado pelo frio, pelas contas por pagar e pelas promessas vagas de que "este ano é que vai ser". Mas, nos últimos anos, ganhou um novo ritual. Chama-se Dry January e propõe um mês inteiro sem álcool.
"O final do ano é marcado por excessos, nomeadamente no consumo de bebidas alcoólicas", começa por apontar Dénis Valéria Sousa, psicóloga clínica e da saúde no Hospital Trofa Saúde Senhor do Bonfim, em declarações à hAll. É por isso que, "no início do ano existe, naturalmente, uma maior vontade para alterar determinados comportamentos e estabelecer resoluções de ano novo".
Mas a adesão crescente ao Dry January, explica a psicóloga, vai além da lógica da compensação pós-festas. "Desafios como o Dry January ganham adesão porque oferecem uma meta clara, temporalmente limitada e socialmente validada, é mais fácil assumir um compromisso quando sentimos que 'não estamos sozinhos'".
"Inicialmente pode surgir maior irritabilidade, ansiedade, sensação de 'falta' ou desconforto."
Ainda assim, o fenómeno expõe uma relação mais profunda com o álcool. "O consumo de bebidas alcoólicas está associado à celebração, ao relaxamento, ao alívio do stress, à recompensa depois de dias exigentes, e até à integração social", refere Dénis Valéria Sousa. Quando surge a necessidade de parar, mesmo que temporariamente, "isso mostra que o consumo não é apenas ocasional, é um comportamento suficientemente presente para haver preocupação ou necessidade de controlo".
O que acontece quando o álcool sai de cena
"Quando o álcool está muito ligado a momentos de convívio, descontração ou 'recompensa', retirá-lo não mexe apenas com o comportamento, mas também com a dimensão emocional dessas experiências", sublinha a psicóloga. O impacto sente-se, muitas vezes, logo nos primeiros dias. "Inicialmente pode surgir maior irritabilidade, ansiedade, sensação de 'falta' ou desconforto." E depois vem o "confronto com emoções mais 'cruas', com o silêncio, com o tédio, com o cansaço real do dia. Para algumas pessoas, esta experiência é desconfortável; para outras, reveladora.
E se a dimensão emocional é evidente, os efeitos físicos não ficam atrás e estão longe de ser placebo. "Do ponto de vista nutricional e metabólico, o álcool não é um alimento nem um simples elemento social", sublinha a nutricionista Lillian Barros à hAll. "É uma substância psicoativa, inflamatória e hepatotóxica, com impacto direto em múltiplos sistemas do corpo humano."
Mesmo quando o consumo é considerado moderado, o impacto existe. "Após a ingestão, o álcool é rapidamente absorvido e metabolizado maioritariamente no fígado, onde compete com o metabolismo da glicose e das gorduras, aumenta a produção de radicais livres, promove inflamação e stress oxidativo." O resultado traduz-se num corpo constantemente em esforço, com reflexos no sono, no metabolismo e na energia diária.
Ao retirar o álcool durante três a quatro semanas, o organismo começa a responder. "Consegue reduzir a inflamação sistémica, melhorar a sensibilidade à insulina, diminuir a acumulação de gordura hepática e otimizar a função hepática." Na prática clínica, os relatos são consistentes: "Aumento da energia e do rendimento diário, incluindo menos fadiga matinal, menos necessidade de estimulantes (café, açúcar), uma maior estabilidade energética ao longo do dia e maior clareza mental".
"Um mês sem álcool pode ser apenas uma pausa simbólica se for encarado como um desafio para cumprir' e, no dia 1 de fevereiro, tudo voltar exatamente ao mesmo."
O sono é um dos primeiros a agradecer. "Embora o álcool dê uma falsa sensação de relaxamento, ele reduz o sono profundo, aumenta os microdespertares e piora a recuperação física e mental", explica Lillian Barros. Após uma ou duas semanas sem álcool, "é comum observar um sono mais profundo, menos despertares noturnos".
Há ainda benefícios digestivos frequentemente subestimados. "O álcool irrita a mucosa gástrica e intestinal, podendo agravar refluxo e azia, aumentar inchaço abdominal e com um importante impacto negativo na microbiota intestinal." A pausa do consumo traduz-se, muitas vezes, "numa menor distensão abdominal, uma melhoria na digestão e mais regularidade intestinal".
Também a saúde mental entra em modo de ajuste. Segundo Lilian Barros, "o álcool pode aumentar a ansiedade basal, apesar do efeito inicial relaxante interfere com neurotransmissores ligados ao humor". Sem ele, "muitas pessoas relatam maior foco, menos irritabilidade e um melhor controlo emocional", além de efeitos visíveis como "menos retenção de líquidos, menos inflamação cutânea e uma pele com aspeto mais hidratado".
Um mês chega para mudar hábitos?
Apesar dos benefícios, "um mês sem álcool pode ser apenas uma pausa simbólica se for encarado como um desafio para cumprir' e, no dia 1 de fevereiro, tudo voltar exatamente ao mesmo", alerta Dénis Valéria Sousa. Nesses casos, "funciona quase como uma compensação moral pelos excessos, sem verdadeira reflexão".
Já Lillian Barros deita por terra algumas das expetativas mais comuns. "'Desintoxicação total do organismo'? O corpo não precisa de detox, mas sim de menos agressões repetidas." Quanto à balança, "sem ajuste alimentar, o efeito pode ser nulo". E a ideia de anular excessos acumulados não passa de ilusão: "O metabolismo responde a hábitos consistentes, não a compensações pontuais".
"Não é o mês em si que transforma, é o que fazemos com o que esse mês nos mostra", resume a psicóloga. A nutricionista concorda: "O maior ganho do Dry January é educativo: ajuda o paciente a perceber se bebe por prazer, hábito, stress ou automatismo social".




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