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Resoluções de Ano Novo: porque é que janeiro nos faz querer mudar tudo de uma vez?

  • Foto do escritor: Ana Rita Rebelo
    Ana Rita Rebelo
  • 2 de jan.
  • 6 min de leitura

Em entrevista à hAll, a psicanalista Cristina Nunes desmonta a ideia de que janeiro é um botão de reset emocional, explica porque mudar tudo de uma vez costuma falhar e reflete sobre o que acontece emocionalmente quando janeiro não corre como planeado.



O início do ano chega quase sempre carregado de balanços, promessas e da tentação de recomeçar do zero. Com ele instala-se, muitas vezes, uma pressão silenciosa para mudar tudo de uma vez.


Para a psicanalista didata Cristina Nunes, presidente da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, janeiro tem sobretudo um peso simbólico. “O início de um novo ano é tão bom como qualquer outro momento do ano para planear ou exigir mudanças”, sublinha à hAll. No seu entender, o que verdadeiramente move a transformação é um processo interno, muitas vezes desconfortável, que passa por "sentir insatisfação, entrar em contacto com emoções de deceção e tristeza".


A responsável deixa um aviso claro. "Cada mudança é o resultado das emoções experimentadas nas tentativas e erro ao longo do tempo", diz, afastando a ideia de transformações rápidas.


O mês de janeiro é um bom momento para exigir mudanças?


O início de um novo ano é tão bom como qualquer outro momento para planear ou exigir mudanças. Para querer mudar seja o que for nas nossas vidas, é necessário sentir insatisfação, estar em contacto com a deceção e tristeza e, a partir dessa visita à nossa parte depressiva, encontrar motivação para a mudança. Isso faz-se através da análise reflexiva do que nos leva a insistir no que nos traz mal-estar, da tomada de consciência de que é preciso mudar o que nos condiciona, da análise de todas as alternativas de que somos capazes e dos respetivos custos e benefícios a curto, médio e longo prazo, escolhendo aquela que apresenta custos suportáveis face aos recursos de que dispomos e mais benefícios, a caminho da mudança pretendida.


Nem sempre é fácil e, muitas vezes, é necessário procurar ajuda especializada. De todo o modo, a representação mental e toda a esperança de um futuro melhor, contidas nos milhões de votos trocados desejando um novo ano capaz de trazer bonança a seguir à tempestade, funcionam como um estímulo adicional para acreditar que este início de um novo projeto - ou recomeço do novo ano - pode ser o tal momento para mudar. Ainda que ilusório, dependendo de cada pessoa, poderá ser vivido como um reforço de motivação suficiente para o arranque rumo à mudança. Para descer diz-se que todos os santos ajudam; para as mudanças a caminho de uma vida - ou pessoa - melhor, a magia ou fantasia associada ao "Santo Ano Novo" pode, de facto, constituir-se como uma ajuda preciosa.


"Cada mudança é o resultado das emoções experimentadas nas tentativas e erros ao longo do tempo."

Porque é que sentimos tanta pressão para "começar do zero" assim que o ano muda?


As fantasias e os aspetos culturais associados ao início do novo ano - nomeadamente a esperança de um ano melhor, abrindo a possibilidade de atingir o que no ano anterior se desejou sem se conseguir - tendem a despertar emoções negativas de incapacidade, desilusão e culpabilidade, muitas vezes inconscientemente associadas, porque difíceis de lidar, ao ano que findou. Esse processo inconsciente facilita evitar o contacto com a culpabilidade desses supostos erros anteriores, atribuindo qualidades mágicas ao tempo, como se, em cada início de ano, nos fossem concedidos mais créditos ou vidas no jogo da vida, permitindo corrigir e melhorar escolhas passadas.


Idealmente, deveria ser a reflexão, o autoconhecimento, a avaliação dos nossos recursos e a ética pessoal de cada um - para onde queremos ir - que nos orientassem em qualquer altura do ano. Mas, quando isso não é fácil, qual o mal de aproveitar a boleia de uma motivação extra, como cada reinício anual, tantas vezes após um acumular de excessos do velho ano que acabámos de enterrar como se nunca tivesse existido, abrindo espaço à transformação pelas experiências que o novo ano trará? O importante é lembrar e integrar o nosso histórico, a nossa história de vida e o autoconhecimento, sobretudo no que se relaciona com aquilo que queremos mudar ou melhorar. Até porque cada mudança é o resultado das emoções experimentadas nas tentativas e erros ao longo do tempo e das reflexões daí decorrentes, que vão afinando progressivamente o plano e a sua exequibilidade.


Do ponto de vista psicológico, a ideia de mudar tudo de uma vez é realista ou está, à partida, condenada ao fracasso?


A ideia de mudar tudo de uma vez parece, de facto, irrealista e alimentada por uma visão messiânica e fantasiosa, como se fosse possível desinscrever o passado e a experiência anterior, adquirindo a fantasia de que a mudança pode ser motivada e instalada por algo externo: a medida do tempo, a limpeza do passado, a compra de créditos ou vidas, à semelhança dos jogos internáuticos ou informáticos (que de éticos pouco ou nada têm), cada vez mais confundidos com a realidade de quem vive através deles grande parte dos seus desejos e emoções.


Mesmo em mudanças menos internas, como deixar de fumar, por exemplo, há sempre vários momentos e tentativas que, através da análise, reflexão e avaliação de alternativas e recursos em cada insucesso, preparam a próxima tentativa. É necessário tempo para desejar, experimentar, analisar e preparar a tentativa seguinte, cada vez mais ajustada ao caminho para chegar onde se deseja, sendo também esse lugar de chegada frequentemente ajustado ao longo das tentativas.


Muitas pessoas começam o ano cheias de boas intenções e acabam por sentir culpa poucas semanas depois. O que é que acontece emocionalmente quando falhamos uma resolução?


Quando falhamos nas nossas resoluções, é normal e necessário sentir deceção e sentimento de culpa, entrar em contacto com essa parte depressiva, de onde surge a força motriz para elaborar o luto da perda e continuar a luta. É como bater no fundo da piscina para ganhar impulso para subir, agora com uma melhor análise dos recursos utilizáveis e uma definição de metas progressivamente mais exequíveis.


Todas as experiências anteriores fornecem informações muito valiosas para ajustar a forma como nos aproximamos das nossas metas. Um plano bem elaborado, com avaliação dos recursos necessários, incluindo o tempo, e com o estabelecimento de metas curtas, exequíveis e objetivamente avaliáveis, facilita focarmo-nos apenas na meta atual, com a confirmação de que é possível avançar, sem nos dispersarmos com a chegada ao fim último. Facilita também a interiorização e consolidação da autoconfiança e, consequentemente, da autoestima e da satisfação consigo próprio.


Esta lógica das resoluções pode ativar sentimentos de culpa, inadequação ou falhanço pessoal?


O não atingir os objetivos definidos pode conduzir a desapontamento, deceção, inadequação, culpabilidade e sentimento de falha pessoal. Será da responsabilidade de cada pessoa encontrar uma forma de integrar essas emoções no seu dia a dia, recorrendo ao autoconhecimento e ao seu histórico pessoal. Todos temos tendência a repetir padrões de funcionamento condicionados desde o início da vida, que moldam o nosso funcionamento psicológico. O autoconhecimento ajuda-nos a identificar essas repetições e, ao aprender com a experiência, a encontrar formas de dar sentido à falha e ajustar as tentativas seguintes.


A ideia do "novo ano, novo eu" ajuda ou atrapalha processos reais de transformação pessoal?


Se não for encarada como um objetivo inflexível e se existir tolerância para aceitar as vicissitudes e abertura às possibilidades que referi, pode funcionar como um aumento de motivação e força interna para reforçar objetivos. No entanto, nunca será mais do que uma motivação externa e, como tal, apenas mais um recurso que poderá facilitar a concretização de algo mais próximo do desejado.


Para quem sente que já "falhou" em janeiro, que conselhos dá para recuperar sem desistir nem entrar numa espiral de autocrítica?


Em primeiro lugar, relativizar e redimensionar o objetivo ao possível, reconhecendo que se aproximou - ou descobriu, após análise e reflexão - um caminho diferente para avançar, continuando o percurso de crescimento e aumentando a autoestima a cada pequeno passo conquistado. Caso isso não seja suficiente, talvez esteja na hora de procurar a ajuda de um terapeuta integrado e reconhecido por uma associação federada, seja a nível nacional, como a Federação Portuguesa de Psicoterapia, ou internacional, como a European Association of Psychotherapy, a International Federation of Psychoanalytic Societies, a International Psychoanalytic Association, ou outras igualmente prestigiadas e credíveis.



Quem pode e deve contactar em caso de necessidade?


Aconselhamento psicológico do SNS 24: 808 24 24 24 selecionar depois opção 4 (24 horas por dia)


SOS Voz Amiga: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (15:30 à meia-noite e meia)


Conversa Amiga: 925 512 884 | 925 512 887 | 808 237 327 | 210 027 159 (15 às 22 horas)


Telefone da Amizade: 228 323 535 | 222 080 707 (16 às 23 horas)


Escutatório, Linha de apoio psicológico, Fundação S. João de Deus: 924 101 462 (10:30 às 12:30 e das 14:30 às 16:30)

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