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"Estar viva deveria ser suficiente." A culpa que algumas mulheres sentem depois do cancro da mama

há 4 horas
4 min de leitura

Depois de uma mastectomia, há mulheres que sentem dificuldade em reconhecer o próprio corpo e outras que não desejam qualquer reconstrução. A especialista Marília Pastana explica o impacto destas alterações e revela que o projeto solidário Amigas do Peito tem listas de espera que podem chegar a um ano.



Uma mulher que tinha passado por uma mastectomia procurou Marília Pastana para adquirir próteses temporárias de aréolas. Sentia-se grata por ter sobrevivido ao cancro da mama, tinha o apoio do marido e não procurava alterar a aparência por motivos relacionados com a vida conjugal. O que queria era voltar a tomar banho com as duas filhas pequenas, um hábito que tinha abandonado depois da cirurgia.


"Aquela mulher não me procurou por vaidade, nem pela sua relação conjugal. Procurou-me porque queria voltar a partilhar aquele momento tão especial com as filhas", conta à hAll Marília Pastana, especialista em dermopigmentação paramédica. O caso, que acompanhou este ano, mostra como as consequências de uma mastectomia podem ir além das alterações físicas.


Uma das dificuldades que Marília Pastana encontra com frequência é o sentimento de culpa associado ao desejo de recuperar a aparência depois da doença. "Existe, por vezes, a ideia de que estar viva deveria ser suficiente. E, claro, a vida é o mais importante. Mas isso não significa que uma mulher deixe de sentir necessidade de se reconhecer no próprio corpo, de cuidar das suas cicatrizes ou de recuperar a autoestima."


Segundo Marília Pastana, os comentários de familiares e pessoas próximas podem agravar este sentimento de culpa, levando algumas mulheres a desvalorizar o desejo de recuperar a aparência. Ultrapassar a doença nem sempre significa conseguir lidar com as mudanças que deixou no corpo.


Um projeto solidário com listas de espera até um ano


Foi para tornar a reconstrução da aréola mais acessível que Marília Pastana criou, no final de 2017, o projeto Amigas do Peito, consolidado em 2018. A iniciativa oferece gratuitamente este procedimento a mulheres que passaram por uma mastectomia. Atualmente, a lista de espera varia entre três meses e um ano. "Esta procura representa uma enorme conquista, mas também demonstra que existe uma necessidade social que continua sem resposta suficiente", afirma.


Inicialmente, o projeto enfrentou dificuldades relacionadas com o desconhecimento do procedimento e com a necessidade de conquistar a confiança da comunidade médica. Hoje, Marília Pastana defende que o acesso a estes cuidados não deveria depender apenas de iniciativas solidárias. "O acesso a estes cuidados não deveria ser um privilégio. Todas as mulheres que sintam essa necessidade merecem ter a oportunidade de se reconstruir até onde considerem importante para si", defende.


A partir das experiências acompanhadas no Amigas do Peito, a especialista criou também o movimento As pazes com espelho, centrado na relação das mulheres com a própria imagem.


A importância de voltar a reconhecer-se ao espelho


A reconstrução da aréola é uma das intervenções procuradas por mulheres submetidas a mastectomia. Através da dermopigmentação, é possível recriar visualmente a aréola e o mamilo, recorrendo a pigmentos e a técnicas que permitem produzir efeitos de sombra e textura. Marília Pastana, que desenvolveu um método denominado Recover CAM, explica que o procedimento procura reproduzir as características visuais da região, embora não restitua todas as características físicas anteriores à cirurgia.


"Há uma frase que ouço frequentemente e que continua a emocionar-me, mesmo depois de tantos anos: 'Sou eu de novo!'", relata. A especialista associa estas reações à importância que a mama pode assumir na identidade de algumas mulheres, nomeadamente pela relação com a maternidade, a sexualidade e a feminilidade.


No entanto, sublinha que a reconstrução não deve ser apresentada como uma necessidade universal. Há mulheres que optam por reconstruir a mama ou a aréola e outras que preferem não realizar qualquer intervenção, por receio de complicações ou por não sentirem essa necessidade. "Não existe uma regra, um padrão ou um corpo que precise de ser corrigido. A reconstrução deve ser uma escolha, nunca uma obrigação."


Esta preocupação também se reflete na forma como Marília Pastana diz acompanhar as pacientes. Ao longo da carreira, percebeu que a intenção de ajudar nem sempre corresponde àquilo que cada mulher pretende. "Aprendi uma lição muito importante: nem sempre dar mais significa cuidar melhor", reconhece.


O método desenvolvido por Marília Pastana permite reproduzir visualmente a aréola e o mamilo, criando efeitos de relevo, sombras e texturas. A especialista afirma que a maioria das mulheres que acompanha fica satisfeita com os resultados, mesmo quando não existe projeção física do mamilo.


Para quem pretende recuperar essa projeção, aponta a existência de alternativas médicas, como o preenchimento com ácido hialurónico em casos selecionados. Estes procedimentos, como esclarece, devem ser realizados exclusivamente por médicos e com a concordância do oncologista responsável.


A dermopigmentação é apresentada pela especialista como uma alternativa menos invasiva à reconstrução cirúrgica. Contudo, a sua realização exige a avaliação das condições clínicas e das expectativas de cada paciente.


Para Marília Pastana, o Outubro Rosa tem um papel importante na sensibilização para os rastreios e para o diagnóstico precoce, mas a atenção dedicada à doença não deve limitar-se a este período. "Costumo dizer que, para nós, todos os meses são rosas, porque o nosso projeto se mantém ativo durante todo o ano, com atendimentos mensais."

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