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Existe mesmo um "dia mais triste do ano"? A verdade sobre a Blue Monday, explicada por uma psicóloga

  • Foto do escritor: Ana Rita Rebelo
    Ana Rita Rebelo
  • 19 de jan.
  • 4 min de leitura

Há dias que ganham nomes, fórmulas e explicações rápidas. Mas o que acontece quando se tenta condensar a tristeza em 24 horas?



Todos os anos, a história repete-se: a terceira segunda-feira de janeiro surge etiquetada como "o dia mais triste do ano". Só que, apesar de parecer coisa séria, a "Blue Monday" é, na verdade, um conceito inventado em 2005 para uma campanha publicitária de uma agência de viagens britânica, apoiada numa fórmula pseudocientífica que juntava frio, dívidas e desmotivação. Não é ciência, mas hoje funciona como desculpa coletiva para falar de tristeza.


Apesar de o desconforto associado a esta altura do ano não ser invenção, a ideia de um dia objetivamente mais triste não faz sentido. Até porque "a tristeza não se organiza segundo o calendário, mas de acordo com uma temporalidade interna própria de cada pessoa", explica à hAll a Francisca Silva Ferreira, psicóloga clínica do Núcleo CASA no Porto. Reconhece também que "se for preciso existir uma Blue Monday para que as pessoas parem um momento para pensar e sentir a tristeza, então que venha ela".


Quando é que a tristeza passa a ser um sinal de alerta?


Antes de pensar a tristeza como um sinal de alerta, importa compreender o que é estar triste. Estar triste é fazer a experiência de uma perda, nem sempre concreta ou nomeável, mas de algo que deixou de estar como estava: uma relação, uma expectativa, uma imagem de si, uma ideia de futuro. A tristeza surge quando o mundo interno precisa de se reorganizar face a essa ausência. Abranda o tempo, recolhe a energia e convida à introspeção. Não é uma falha nem um erro, mas um movimento psíquico necessário.


A tristeza torna-se um sinal de alerta quando esse movimento fica interrompido. Quando a dor não consegue ser pensada, simbolizada ou partilhada, deixa de circular e começa a instalar-se. Torna-se persistente, pesada e paralisante, interferindo com a vida emocional, relacional e, muitas vezes, com o corpo, que pode passar a expressar aquilo que não encontrou palavra. Nesse momento, a tristeza deixa de ser apenas uma emoção transitória e transforma-se num sofrimento que pede escuta, tempo e acompanhamento. Quem consegue ouvir a própria tristeza aprende a valorizar a alegria de forma mais genuína.


A Blue Monday é frequentemente apresentada como "o dia mais triste do ano". Do ponto de vista da psicologia, faz sentido falar de um dia objetivamente mais triste do que os outros?


Do ponto de vista psicológico, não faz sentido falar de um dia objetivamente mais triste. A tristeza não se organiza segundo o calendário, mas de acordo com uma temporalidade interna própria de cada pessoa. Cada sujeito vive o tempo de acordo com a sua história, vínculos, perdas e investimentos afetivos.


Historicamente, a Blue Monday surgiu em 2005 como uma campanha de marketing de uma empresa de viagens no Reino Unido, que combinou clima, dívidas pós-Natal, falhas nas resoluções de Ano Novo e baixa motivação numa fórmula pseudo-científica. Não há base científica sólida que determine que um dia do ano seja mais triste.


Ainda assim, se for preciso existir uma Blue Monday para que as pessoas parem um momento para pensar e sentir a tristeza, então que venha ela. Refletir sobre a própria experiência emocional, mesmo que provocada por um dia simbólico, é um convite valioso para cuidar de nós mesmos e reconhecer as nossas perdas.


"O mal-estar que muitas pessoas sentem nesta altura do ano é real e merece reconhecimento."

Há algum risco em transformar a tristeza num evento com data marcada?


Transformar a tristeza num evento marcado no calendário traz riscos e oportunidades. Pode domesticá-la, tornando-a socialmente aceitável apenas naquele momento, criando a ilusão de que o sofrimento tem início e fim predefinidos. Mas, se usado conscientemente, um dia simbólico como a Blue Monday pode servir de gatilho para refletir, conversar e cuidar da própria saúde emocional, lembrando que a tristeza faz parte da experiência humana e merece atenção ao longo do tempo, e não apenas num dia.


O facto de a Blue Monday não ter base científica invalida o mal-estar que muitas pessoas sentem nesta altura do ano?


O mal-estar que muitas pessoas sentem nesta altura do ano é real e merece reconhecimento. Há menos luz, mais cansaço, regresso às exigências da rotina e, muitas vezes, experiências de solidão, frustração ou sensação de estagnação. Quando a capacidade de elaboração psíquica diminui, o sofrimento pode manifestar-se tanto no plano emocional como no corpo, através de sintomas físicos.


Como é que podemos falar de tristeza de forma mais honesta e realista?


Falar da tristeza de forma honesta significa reconhecê-la como uma emoção estruturante, ligada à perda, à desilusão e à necessidade de integrar experiências dolorosas. A intensidade da tristeza costuma ser proporcional ao nível de investimento afetivo feito numa relação, num projeto ou numa expectativa. Há perdas que mergulham numa tristeza profunda; outras, embora dolorosas, conseguimos elaborar sem nos sentirmos arrastados para o fundo. Muitas vezes evitamos ficar a sós com a nossa tristeza, porque isso obriga a contactar com aquilo que foi perdido e com os nossos próprios limites.


Que abordagem deveríamos adotar para falar de saúde mental nesta altura do ano?


Abordar a saúde mental nesta altura do ano exige ir além de datas simbólicas e discursos simplistas. Significa criar espaços de escuta, sustentar o pensamento sobre a dor e reconhecer que o sofrimento não se resolve com fórmulas rápidas. Trata-se de acompanhar processos ao longo do tempo, respeitando o ritmo singular de cada pessoa. Cuidar da saúde mental é aceitar que há dores que precisam de ser pensadas e não apressadamente silenciadas.


 


Quem pode e deve contactar em caso de necessidade?


Aconselhamento psicológico do SNS 24: 808 24 24 24 selecionar depois opção 4 (24 horas por dia)


SOS Voz Amiga: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (15:30 à meia-noite e meia)


Conversa Amiga: 925 512 884 | 925 512 887 | 808 237 327 | 210 027 159 (15 às 22 horas)


Telefone da Amizade: 228 323 535 | 222 080 707 (16 às 23 horas)


Escutatório, Linha de apoio psicológico, Fundação S. João de Deus: 924 101 462 (10:30 às 12:30 e das 14:30 às 16:30)

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