Vive à espera de sexta-feira e sofre quando chega domingo? Há uma explicação
Há quem comece a sentir um aperto no estômago assim que o fim de semana se aproxima do fim. O neuropsicólogo Alberto Lopes explica porque acontece, quando devemos preocupar-nos e o que pode ajudar.

É domingo à tarde, mas já está a pensar nos e-mails por responder, nas reuniões de segunda-feira e em tudo o que terá de fazer nos próximos dias? Este fenómeno dá pelo nome de Sunday Blues. Mas será que a culpa é mesmo do regresso ao trabalho?
"O cérebro não reage apenas ao que acontece, mas também àquilo que imagina que vai acontecer", explica à hAll Alberto Lopes, neuropsicólogo e hipnoterapeuta. Segundo o especialista, a antecipação das responsabilidades pode ativar os mecanismos de alerta, mesmo quando não existe qualquer problema concreto à nossa espera. "É como ouvir o despertador antes de ele tocar. O corpo ainda está no domingo, mas a mente já começou a trabalhar na segunda-feira", descreve.
Quando o descanso (também) se transforma numa obrigação
Há também outro fator que pode tornar tudo pior: a sensação de que não aproveitámos suficientemente o fim de semana. "Quando sentimos que o tempo livre foi insuficiente, a segunda-feira parece ainda mais ameaçadora", aponta Alberto Lopes, acrescentando que "o descanso deixa de ser vivido como prazer e passa a ser avaliado como uma oportunidade perdida".
O problema pode agravar-se quando transformamos o próprio lazer numa lista de tarefas. "Vivemos numa sociedade que transformou até o lazer numa competição de produtividade", constata o especialista. Porém, defende que "descansar não é fazer tudo aquilo que não conseguimos fazer durante a semana. É permitir-nos não ter de fazer nada":
E se o problema não for domingo, mas o trabalho?
O neuropsicólogo e hipnoterapeuta lembra que nem toda a ansiedade antecipatória é prejudicial. Pensar nos compromissos da semana pode, segundo o próprio, ajudar-nos a organizar prioridades e a preparar respostas para situações concretas. A dificuldade surge quando essa antecipação se transforma num ciclo de preocupações sem solução. "A antecipação saudável conduz a uma decisão; a ruminação conduz a mais preocupação", distingue Alberto Lopes.
Mais: quando este desconforto surge praticamente todos os domingos, também importa olhar para a relação com o trabalho. O especialista refere que a ansiedade pode ser uma resposta a ambientes profissionais marcados por pressão excessiva, conflitos, falta de reconhecimento ou ausência de autonomia. "Nem sempre precisamos de ensinar a mente a suportar melhor o ambiente; por vezes, precisamos de mudar o ambiente que está a adoecer a mente", alerta.
Organizar refeições, arrumar a casa ou preparar a agenda de segunda-feira são hábitos que podem trazer alguma tranquilidade, mas também podem ter o efeito contrário. Segundo Alberto Lopes, tudo depende do tempo e da energia que dedicamos a essas tarefas. "Quando passamos o domingo inteiro a preparar a segunda-feira, acabamos por prolongar psicologicamente a semana de trabalho."
Como tal, o ideal é reservar um período limitado para tratar do essencial e preservar o restante tempo para descansar ou fazer atividades de que gostamos. Desligar as notificações profissionais, estabelecer limites digitais, praticar exercícios de respiração ou criar um ritual tranquilo ao domingo são outras estratégias que podem ajudar a reduzir a ansiedade, de acordo com o especialista.
Por outro lado, alterações do sono, sintomas físicos, irritabilidade, tristeza e dificuldades nas relações pessoais são alguns dos sinais que, segundo Alberto Lopes, podem justificar a procura de acompanhamento psicológico. "Não é necessário esperar por uma crise para mudar. Por vezes, o primeiro sinal de maturidade emocional é reconhecer que aquilo que conseguimos suportar já não é necessariamente aquilo que devemos continuar a aceitar."
"Uma vida emocionalmente equilibrada não deveria ser construída apenas à espera do próximo fim de semana", remata.




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